Solvay terá de descontaminar depósito de cal contaminada por dioxina em Santo André (SP)


"A total descontaminação da área é o único meio concreto para garantir que a dioxina, uma das substâncias mais tóxicas existentes, continue alcançando o meio ambiente e pondo em risco a saúde pública", diz Darryl Luscombe, PhD em química e especialista em dioxinas do Greenpeace Austrália. "Precisamos ter certeza, agora, de que a descontaminação vai ser feita de maneira ambientalmente correta sem recorrer, por exemplo, à incineração, que acaba lançando mais poluentes tóxicos no ar".

No dia 17 de setembro haverá uma nova reunião para as partes envolvidas apresentarem um cronograma de trabalho. A Solvay e a Cetesb deverão indicar quais vão ser as metas de descontaminação e contenção do depósito e como será feito este trabalho. O Greenpeace, por sua vez, vai continuar acompanhando todo o processo. "Temos bastante experiência nisto, porque estamos assessorando a Comitê Olímpico da Austrália no processo de descontaminação da região de Homebush Bay, principal local onde acontecerão os jogos olímpicos de Sidney, no ano 2000", diz Darryl Luscombe. "A contaminação por dioxinas naquela área é gravíssima também e as autoridades deverão gastar cerca de US$ 100 milhões para limpar a região".

O Greenpeace divulgou após a reunião um documento da Cegeq, laboratório da Petrobrás, no Rio de Janeiro, provando que a Solvay é fonte de contaminação por dioxina detectada no leite europeu em março de 1998. O leite foi contaminado pelo farelo de polpa cítrica importado do Brasil e usado como componente da ração dos animais. A cal é misturada ao farelo para diminuir a acidez natural do produto. Devido à contaminação, a União Européia proibiu a importação do produto e obrigou a segregação as 100 mil toneladas que já haviam sido importadas. (2)


Mais informações:

greenpeace.brazil@dialb.greenpeace.org.br

Notas do editor


(1) Integrante do grupo dos Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs), a dioxina, uma das substâncias mais tóxicas conhecidas, é cancerígena e afeta os sistemas imunológico e endócrino. Esta substância perigosa e persistente dura um longo tempo no ecossistema, acumulando-se nos tecidos gordurosos dos animais e contaminando as fontes de alimento. A dioxina pode ser transmitida pela gestante ao feto através da placenta e ao lactente através da amamentação. Os POPs são compostos altamente tóxicos, em cujas moléculas o carbono se une ao cloro. Estas substâncias são geradas ao longo de diversos processos industriais, como a produção do plástico PVC, no branqueamento do papel e na incineração de lixo. Os POPs invadem a cadeia alimentar dos seres vivos, acumulando-se nos organismos e não podem ser eliminados. Mesmo em pequenas quantidades, têm graves efeitos na saúde humana. Podem afetar os sistemas reprodutivo, nervoso e imunológico, além de serem potencialmente cancerígenos.

Os seguintes documentos apresentados na reunião hoje podem ser obtidos na home page do Greenpeace via download:

 

 

(2) De acordo com documentos aos quais o Greenpeace teve acesso no Brasil e na Europa, pesquisadores seguiram o rastro da contaminação e chegaram a um depósito de resíduos tóxicos na fabrica da Solvay no ABC paulista. O depósito com 200 mil m2, abriga mais de 1 milhão de toneladas de cal contaminada com dioxinas. O Brasil exportava cerca de 1,5 milhão de toneladas de polpa cítrica para Europa para uso na formulação de ração animal, um negócio de US$ 100 milhões ao ano.

Após a denúncia do Greenpeace, a Cetesb (agência ambiental de São Paulo) lançou nota pública confirmando a contaminação da cal com dioxinas e a proibição da comercialização deste lixo tóxico em vigor desde agosto de 1998. Segundo a nota, foi a Solvay que forneceu cal para a indústria de polpa cítrica. Em declaração à imprensa, o então Coordenador Geral de Produção Animal do Ministério da Agricultura, Hygino de Carvalho, também confirmou a denúncia afirmando que "a contaminação do farelo vem da cal com resíduos procedentes da Solvay."

A lista de clientes que podem ter utilizado a cal contaminada pela Solvay é bastante ampla e inclui fabricantes de adubos e fertilizantes, indústria química e construção civil. Os Ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente foram contatados pelo Greenpeace, mas até gora não apresentaram nenhum dado comprovando a existência de investigação para verificar a possível contaminação por dioxinas em produtos comercializados no país.

 

Fonte: Greenpeace