Parceria universidade-empresa garante tecnologia para incineração de resíduos


Um dos mais graves problemas ambientais do Rio Grande do Sul está em vias de ser solucionado graças a uma fértil parceria entre a Fundacouro (Fundação Paulo Luck Schuck, que reúne as indústrias coureiro-calçadistas do Vale dos Sinos), a empresa Luftch (que produz equipamentos para controle ambiental) e uma equipe de pesquisadores da Engenharia Química da Escola de Engenharia da UFRGS, coordenados pelo professor Cezar Wagner de Almeida Thober. A parceria, que também conta com recursos da Fapergs (Fundação de Apoio à Pesquisa do RS) e do CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa), vai produzir um estudo pioneiro sobre os parâmetros em que deve ser feita a incineração dos resíduos sólidos cromados dos curtumes. Ao longo de todo esse ano, serão feitas pesquisas com incineradores de bancada (modelos reduzidos dos equipamentos industriais), instrumentados para que possam ser medidos e controlados itens como temperatura, pH e composição das emissões produzidas durante o processo de queima dos resíduos. Ao final dessa primeira etapa, os pesquisadores terão definido as melhores condições tecnológicas para que os resíduos sejam incinerados sem danos ao meio ambiente. A partir desses parâmetros, os equipamentos industriais poderão ser construídos pela própria Luftch, já no próximo ano, para atender a necessidade da indústria, com a tecnologia garantida pela Escola de Engenharia da UFRGS, declara o professor Thober.

A indústria coureiro-calçadista é uma das mais importantes do País. Só no RS, estima-se que cerca de 112 mil empregos estejam relacionados com este setor, que possui cerca de 4 mil empresas em todo o País, 80% das quais situadas no Estado, mais especificamente no Vale dos Sinos (os dados foram fornecidos pelo Fundacouro e não incluem alterações decorrentes da crise cambial dos últimos meses). Os números relativos à produção dessa indústria - e, por via de consequência, de produção de resíduos - também são elevados (veja mais detalhes no quadro, nesta página). Estima-se que sejam usadas anualmente 24 milhões de peles bovinas, 80% dos quais são curtidos através de sais de cromo, e por isto seus resíduos são considerados tóxico "classe 1" pelas normas da ABNT: os mais perigosos, que apresentam riscos à saúde pública e ao meio ambiente. O cromo do curtimento fica contido nos resíduos do processo de preparação da pele nas chamadas rebaixadeiras, cilindros com navalhas que lixam e aparam o couro, para que mantenha a mesma espessura em toda a extensão. Para cada couro processado, são produzidos entre dois e 14 quilos desse farelo de pó e aparas que, ao final de um ano, chegam perto de 130 mil toneladas, só no Rio Grande do Sul. No Japão, o destino desse tipo de resíduo tem sido a incineração, desde 1976, quando começaram a ser testadas não apenas as condições da queima como inclusive a recuperação do cromo contido nas cinzas. Esse processo, previsto para uma segunda etapa do atual projeto de incineração, pode chegar a representar uma economia de mais de 20 milhões de dólares por ano, estimativa do valor gasto com a importação do cromo para o curtimento. A incineração também vem sendo usada na França, na Alemanha, Espanha e nos Estados Unidos, sempre através de processos controlados que garantem níveis aceitáveis de emissão de dióxido de carbono, águas e cinzas, sem dioxinas e furanos (substâncias altamente tóxicas produzidas por processos de incineração em altas temperaturas). Além disso, as cinzas resultantes dessa queima não devem conter o cromo 6 (hexavalente), também com alto potencial tóxico.

No RS, atualmente, o resíduo dos curtumes ainda vem sendo acumulado em aterros sanitários ou "lixões", visivelmente

inapropriados, porque são constantemente lixiviados pela chuva e vão contaminar o lençol freático, explica o coordenador do projeto. Já existem instalações um pouco mais seguras, as chamadas ARIPs, que são valas padronizadas, com mantas plásticas impermeáveis e aterramento constantes. Mas mesmo essas, segundo a equipe de pesquisadores, apresentam riscos, seja de falta decontrole permanente do processo, seja de ruptura da impermeabilização, além de custarem caro (cerca de US$ 5,00 o metro cúbico) e não representarem nenhuma possibilidade de retorno econômico ou social.

Já estão instalados no Departamento de Engenharia Química da Escola de Engenharia dois incineradores de bancada, um em leito fixo e outro em leito fluidizado (dois processos diferenciados de incineração). O primeiro entra em operação ainda em fevereiro e o segundo estará operando até o final de março, informa o professor Thober (316-3575). A incineração controlada cientificamente representa um fator de proteção ambiental e de economia nos custos de produção. Sua vantagem mais facilmente mensurável é a brusca redução no volume do resíduo (as cinzas representam cerca de 5% do volume do resíduo queimado), que potencializa a capacidade das ARIPs já instaladas, além de permitir o aproveitamento industrial da energia gerada pela combustão. E, num futuro previsível, o resíduo poderá ser reciclado. Cerca de 50% da cinza é composto de cromo, com alto concentrado metálico, em teores muito superiores ao de qualquer mina extrativa. O controle dessa tecnologia de incineração dos resídulos cromados de curtumes poderá representar a economia desse custo na produção coureiro-calçadista gaúcha, tornando-a mais competitiva nacional e internacionalmente.

 

Fonte: Jornal da Escola de engenharia - UFRGS