Fica barato poluir? Três histórias possíveis.


Maria Suely Moreira

Coordenadora de Implantação do SGA da SUTEC/CVRD, Instrutora do IETEC e consultora em Sistema de Gestão Ambiental modelo ISO14000.

História 1

A empresa POLUX é bem antiga no mercado e nunca se preocupou em obter o licenciamento ambiental, coisa que não era exigida na época de sua implantação. E somente vai fazê-lo após convocação dos órgãos competentes. Na verdade a POLUX espera que isto nunca vá ocorrer, pois a empresa fica distante da cidade, funciona discretamente e, além disto, os órgãos ambientais não têm e nunca terão recursos suficientes para fiscalizar todas as empresas. A área circunvizinha, antes deserta, hoje apresenta uma ocupação crescente, porém desorganizada, carente, com pouquíssima assistência dos órgãos municipais.

Assim, a POLUX mantém suas atividades, ano após ano, sem qualquer preocupação ambiental. Em seu organograma não existe departamento de meio ambiente e seus diretores consideram que investir nessa área é dinheiro jogado fora. Diante de toda essa crise, com essa concorrência desleal, elevados impostos e juros "escorchantes", quem pode gastar dinheiro com ecologia? Só se for maluco.

Um belo dia a POLUX recebe uma intimação judicial para responder por crime contra o meio ambiente. A comunidade, orientada por uma organização não-governamental, entrou com a queixa na Justiça. Alarmados, os diretores tomam conhecimento de que atualmente as multas por crimes ambientais podem chegar a R$ 50 milhões. E que, dependendo da decisão judicial, a empresa pode ser impedida de funcionar por algum tempo.

História 2

A empresa LEX tem licenciamento ambiental e um bom departamento de meio ambiente, que toma todas as providências para que a empresa esteja sempre cumprindo a legislação. Enquanto a área de produção se concentra em produzir e o departamento de qualidade se preocupa com o controle de qualidade, o departamento de meio ambiente realiza auditorias ambientais periódicas e orienta quanto aos investimentos em controles ambientais necessários para manter tudo dentro dos padrões legais. O relacionamento entre a LEX e os órgãos ambientais é muito bom e a empresa jamais recebeu qualquer multa ou queixa da comunidade.

Entretanto, isto não chega a representar um apelo significativo para a imagem institucional da empresa, nem um diferencial de competitividade. Embora conscientes de que é inadmissível produzir sem observar a legislação ambiental pertinente, e que a empresa está apenas cumprindo sua obrigação, os diretores gostariam de ter algum benefício mais concreto decorrente de sua atuação ambientalmente responsável e andam preocupados com os elevados custos dos controles ambientais, pois as margens de lucratividade da empresa têm diminuído perigosamente nos últimos anos.

História 3

Em sua última reunião de Planejamento Estratégico, os diretores da empresa LONGVISION debateram amplamente as tendências mundiais sobre diversos assuntos relevantes para a sobrevivência de seu negócio, dentre eles, meio ambiente. Após analisarem a situação interna e a situação do mercado, as ameaças e as oportunidades, resolveram investir na implantação de um sistema de gestão ambiental, tendo como objetivos principais a garantia do atendimento à legislação, a redução da poluição e a redução de custos, a partir da conscientização de toda a empresa. Como a LONGVISION já possui Sistema de Gestão da Qualidade (uma exigência do mercado), optou por incorporar a este os requisitos de gestão ambiental, tornando-o um sistema integrado.

Implantado o sistema, que demandou esforços concentrados, os diretores perceberam de imediato que os problemas ambientais deixaram de ser exclusivos da área de meio ambiente e passaram a ser incorporados por toda a empresa. Mais ou menos como no caso da garantia de qualidade, quando se deixou de controlar o produto no final da linha e passou-se a controlar a qualidade ao longo do processo. E a cada ciclo de funcionamento do sistema, as propostas de melhoria partiram de todos os lados, trazendo benefícios e economias muito interessantes.

O pessoal de pesquisa e desenvolvimento viabilizou um subproduto a partir de um rejeito, antes tratado e descartado. Ou seja, além de evitar o desperdício de matéria prima e custos de produção, ainda eliminou-se o custo de tratamento do rejeito.

A área de compras conseguiu empresas interessadas em adquirir alguns outros tipos rejeitos para reciclagem ou utilização como matéria-prima.

O pessoal da produção sugeriu uma alteração no processo que deve reduzir em 20% o volume de rejeitos, e o investimento se pagará em 10 meses. Desta forma, a matéria-prima passa a ser melhor aproveitada. Outra sugestão foi substituir um insumo altamente poluidor por um outro, que embora um pouco mais caro, resulta em menor custo de tratamento do rejeito. Além disso, foi proposta uma recirculação de boa parte da água do processo, economizado seu consumo.

Foi formada uma comissão de conservação de energia, cujo trabalho resultou numa redução de 15% no consumo em apenas três meses. E o pessoal de planejamento da produção passou a se adequar, desviando certas operações dos horários de pico para evitar multas por consumo acima da demanda prevista.

Por iniciativa própria, o pessoal da administração liderou com muito sucesso um programa de coleta seletiva para reciclagem de papel e uma campanha de resto zero no restaurante.

A área de meio ambiente pôde assumir finalmente o seu devido papel de assessoria técnica, pois a questão ambiental incorporou-se às responsabilidades básicas de qualquer gerente, de qualquer empregado.

Os diretores já estavam bastante satisfeitos com os resultados do sistema de gestão de qualidade e meio ambiente, quando seu principal cliente manifestou o interesse de que todos os seus fornecedores tenham, além da certificação ISO9000, a ISO14001.

Para a LONGVISION o certificado será apenas um passo, que ainda lhe trará ganhos de imagem, pelo reconhecimento público de sua gestão responsável. Mas para muitos de seus concorrentes há um longo caminho a percorrer...

Fonte: Tecnologia Hoje